sexta-feira, 2 de junho de 2017

Construtor de gente


O economista participava de um debate, em que se discutia o desemprego e, após um engenheiro falar sobre a contribuição da construção civil na demanda por mão-de-obra, o mediador, entre irônico e sério, fez a seguinte afirmação-pergunta:
Os professores não constroem pontes; logo, o que eles podem fazer para ajudar a diminuir o desemprego?
Sem tempo para pensar, o hábil polemista respondeu, também entre irônico e sério:
Realmente um professor não constrói pontes, não levanta edifícios, não pilota aviões, não cura doentes... Essas atividades tão visíveis e responsáveis por tantos empregos.
O professor se contenta com algo mais simples: ele prefere construir o engenheiro que levanta as paredes, instruir o comandante que faz o avião voar, formar o médico que cura, e ensinar os jornalistas a fazerem perguntas embaraçosas.
O professor não constrói coisas... Ele ‘constrói' as pessoas que fazem as coisas, ou pelo menos ajuda as pessoas a construírem a si próprias.
Dizia Immanuel Kant que o homem é a única criatura que precisa ser educada e a educação é a arte de formar os homens; isto é, desenvolver neles simultaneamente as faculdades físicas, intelectuais e morais.
Os animais são resultado de uma fatalidade biológica; mas o homem, conquanto tenha sua porção animal, por sua biologia, é um ser dotado de propósito consciente.
Nesse sentido, o animal-homem é uma entidade ética, capaz de construir, mudar e aperfeiçoar seu pensamento, sua conduta e suas atitudes.
Ortega Y Gasset dizia que a vida nos é dada, mas não nos é dada pronta. O homem carrega, para além da sua fatalidade biológica, a responsabilidade de desenvolver o seu projeto de vida de acordo com sua livre escolha, entre as várias opções que lhe são oferecidas para buscar a sua felicidade.
Aí está o papel do professor, que não constrói pontes, mas que ajuda o homem a desenvolver a si mesmo, a moldar sua ação e erigir seu edifício intelecto-moral.
O professor é um transmissor do seu saber, que deve deixar ao aprendiz o papel de escolher e construir a sua própria obra.
É na modéstia do seu propósito que o professor tem a nobreza da sua missão.
E vale a pena lembrar a poesia do biólogo chileno Humberto Maturana, feita para um professor do seu filho, que inibia o desabrochar da criatividade da criança querendo impor-lhe um modelo rígido.
A poesia, denominada Prece do estudante, pode ser vertida para o português da seguinte forma:
Não me imponha o que você sabe; quero explorar o desconhecido, e ser a origem das minhas próprias descobertas.
Que o seu saber seja minha liberdade, não minha escravidão.
O mundo de sua verdade pode ser minha limitação; sua sabedoria, minha negação.
Não me instrua; vamos caminhar juntos. Deixe que minha riqueza comece onde a sua termina.
Mostre-se a mim, de maneira que eu possa subir nos seus ombros, e ver mais longe. Revele-se para que eu possa ser alguma coisa diferente.
Você crê que todo ser humano pode amar e criar; compreendo, por isso, seu medo, quando lhe peço que me deixe viver de acordo com minha sabedoria.
Você nunca saberá quem eu sou, se escutar apenas a si mesmo.
Não me instrua; deixe-me ser; seu fracasso é que eu seja idêntico a você.
*   *   *
A educação é uma arte particular, que exige vocações muito particulares; exige qualidades morais que não são dadas a todos os homens, tais como sabedoria, firmeza, paciência, vontade e força para dominar as próprias paixões.
Exige profundo conhecimento do coração e da psicologia do ser humano, além do conhecimento dos meios mais apropriados para desenvolver no aluno as faculdades físicas, intelectuais e morais necessárias ao seu crescimento.
A educação é uma arte que precisa ser estudada, do que resulta que o professor é, ele próprio, um eterno aprendiz.

Redação do Momento Espírita, com base em artigo do economista José Pio Martins, publicado no jornal Gazeta do povo, no dia 28/03/2005.
Em 14.10.2011.




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