segunda-feira, 26 de maio de 2014

Quadro familiar


Uma cena, como uma pintura, desenha-se à nossa frente: um homem compenetrado, pai de família, sentado em sua cadeira preferida, estudando para a fase final de seu doutorado.
No ambiente tranqüilo, calado, ouve-se então alguns passos apressados e leves: era Sarah, sua filhinha.
Papai, você quer ver meu desenho? – perguntou ela, com brilho nos olhos.
Sem olhar para ela, o pai logo respondeu, com calma:
Sarah, papai está ocupado. Volte um pouco mais tarde, querida.
Realmente ele estava ocupado, o trabalho de uma semana inteira precisava ser feito em apenas um fim de semana.
Dez minutos depois, ela volta à biblioteca, dizendo: papai, me deixa mostrar o meu desenho?
Sarah, meu amor, volte mais tarde. Isto que estou fazendo é importante – respondeu ele.
Três minutos depois ela entra novamente, fica à um palmo do nariz do pai e fala com todo poder que um comandante de cinco anos de idade poderia conseguir:
Você quer ver ou não?
Não, eu não quero – retorquiu o homem, sem pensar muito no que havia dito.
Com isso, então, ela zuniu para fora e o deixou só.
E de alguma maneira, estando só naquele momento, ele não estava tão satisfeito quanto pensou que ficaria.
Sentiu-se como que puxado, e foi até a porta da frente.
Sarah! – ele chamou. – você poderia entrar um minuto, por favor? Papai gostaria de ver o seu desenho.
Ela entrou sem reclamações e se atirou em seu colo.
Era um grande quadro. Ela lhe deu até um título. No alto, com sua melhor letra, estava escrito: “nossa família”.
Explique-me o quadro. – pediu ele a ela.
Com os pequeninos dedos de sua pequenina mão, ela descreveu:
Aqui é a mamãe (uma figura de palito com cabelo longo, amarelo e ondulado); aqui sou eu, do lado de mamãe; aqui é Katie (nosso cachorro); e aqui é Missy (a pequenina irmã dela).
Adorei seu desenho, querida – elogiou o pai, sorrindo vou pendurar na parede da sala de jantar, e toda noite quando eu voltar para casa eu vou olhar para ele.
Ela sorriu de orelha a orelha e foi brincar lá fora, enquanto o pai voltava aos estudos.
Mas, por alguma razão, ele manteve a leitura no mesmo parágrafo repetidamente. Algo o deixava intranqüilo. Algo sobre o desenho de Sarah. Alguma coisa estava faltando.
Ele foi então até a porta da frente e voltou a chamar a filhinha.
Posso ver seu desenho novamente?
Ela o apanhou rapidamente, e logo já estava no colo do pai, animada.
Foi então que ele fez uma pergunta para Sarah, da qual não estava certo de que gostaria de ouvir a resposta:
Querida... tem a mamãe, e Sarah, e Missy, e até Katie em seu desenho. E tem também sol, e nossa casa e muitos pássaros. Mas Sarah, onde está seu papai?
Rapidamente então ela respondeu, nem sequer imaginando a lição que estava prestes a dar a seu pai:
Você está na biblioteca!
Com aquela declaração simples, Sarah fez parar o tempo para seu pai. Erguendo-a suavemente, ele a mandou de volta para brincar ao sol da primavera.
Em seguida afundou-se em sua cadeira, com a cabeça girando. Aquela simples frase voltava a ecoar em seu coração: “você está na biblioteca!”
Algumas semanas se passaram, e ele tornou-se doutor.
Então, certa noite, ainda com o coração apertado, conversando com sua esposa antes de dormir, fez-lhe a seguinte pergunta:
Bárbara... eu quero voltar para casa. Posso?
Vinte segundos de silêncio se seguiram. Parecia que ele havia prendido seu fôlego por mais de uma hora.
Gary, disse a esposa cuidadosamente. – as meninas e eu o amamos muito. Nós o queremos em casa. Mas você não esteve aqui! Eu me senti como pai e mãe por muito tempo!
E aquela era a verdade clara, sem disfarce – pensou ele.
Sua vida tinha sido descontrolada, sua família estava em piloto automático, e ele tinha uma longa estrada pela frente se as quisesse conquistar novamente.
Agora que a névoa havia se dissipado, ele estava disposto a tentar, e este passou a ser o objetivo mais importante de sua vida.

Equipe de Redação do Momento Espírita, a partir do texto “Quadro familiar”, de Ronaldo José Lungatto.





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