terça-feira, 16 de setembro de 2014

A renúncia


O homem estava caído, com a cabeça ensanguentada. Pedro parou seu carrão e, pelo celular, chamou a ambulância.
Aproximou-se e para estancar o sangue, rasgou um pedaço de sua camisa de linho e enfaixou a cabeça do ferido.
Quando a ambulância chegou, Pedro entregou seu cartão para um dos enfermeiros, pedindo que ligasse para dar notícias do pobre infeliz.
Dias depois, recebeu um telefonema do hospital.
O enfermeiro Márcio avisava que aquele andarilho teria alta.
Seu nome era José Carlos e não tinha familiares na cidade.
Pedro não sabia porque se interessava tanto por aquele homem. Foi ao hospital, entrou na enfermaria e aproximou-se da cama do seu protegido.
Pedro se identificou como o que o havia socorrido na rua. O atendido se emocionou. Há muitos anos, ninguém se interessava por ele.
Era o homem mal cheiroso de que todos buscavam se afastar. Lágrimas lhe umedeceram os olhos e romperam em choro convulsivo.
Pedro ficou ali parado, esperando aquele ser humano dar vazão a toda aquela dor, que parecia reprimida dentro dele. Depois, pediu para que contasse a sua história, se assim desejasse.
José Carlos falou do pai alcoólatra, da mãe que, cansada das surras, abandonou a família, deixando ele e o irmão nas mãos do pai.
Lembrou da fome, do irmão menor chorando, das surras que levavam por motivo nenhum.
Um dia, depois de uma grande surra, apanhou o irmãozinho pela mão e saiu andando, prometendo que jamais voltaria para aquela casa.
Depois de muito andar, o pequenino começou a chorar. Suas perninhas doíam pelas chineladas que havia recebido, pelo cansaço. Sentia fome.
José Carlos tinha onze anos e bateu à porta de uma casa. Uma mulher de cabelos brancos, muito bonita, atendeu e, vendo o sofrimento nos olhos daquelas crianças, os acolheu.
Ele nunca estivera em uma casa tão linda, nem jamais comera comidas tão gostosas.
À noite, na cama com lençóis limpos, aquecido, pensou que no dia seguinte, com certeza, eles teriam que ir embora.
Mas se ele, o maior, desaparecesse, é possível que a mulher ficasse com seu irmão, tão pequeno.
Então, no meio da noite, evadiu-se da casa, levando somente, como lembrança, uma meia do irmãozinho.
Nos dias seguintes, à distância, ficou acompanhando as saídas da senhora conduzindo Pedrinho, seu irmão.
Foram ao parque, às compras, ao mercado. Ela o segurava pela mão. Ficara com ele.
Satisfeito, José desapareceu daquela cidade. Nunca esqueceu aquela mulher mãe que os acolheu.
Chorou mais um pouco e nem percebeu as lágrimas de Pedro.
José Carlos se tornou andarilho. Muitos anos depois, retornou à cidade e ao casarão.
A família havia se mudado e ele nunca mais soube do irmão.
Foi aí, entre lágrimas, que ele olhou para Pedro, que chorava.
Em suas mãos, retirada da carteira de couro, José Carlos reconheceu o pé de meia do seu irmão, aquele que fazia par com o que ele carregava até hoje, como lembrança.
Sem falar nada, se abraçaram, e todos que ali passavam, se emocionavam.
Quando souberam da história, choravam de alegria. Ainda hoje, naquele hospital, se fala da história de amor de um irmão que renunciou a tudo pela vida do irmãozinho.
Atualmente, os dois dirigem um lar que abriga crianças na orfandade, aos quais têm oportunidade de dar carinho e proteção.
O lar funciona naquela mesma casa bonita, onde um dia José Carlos deixou seu irmão Pedro, na esperança de que ao menos ele tivesse o que ele nunca teve: amor de mãe, bem maior do que qualquer tesouro.

Redação do Momento Espírita, a partir de história de autor desconhecido.
Em 28.02.2011.




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