quinta-feira, 16 de maio de 2013

A menina e o pássaro


Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele
era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.

Os pássaros comuns vão embora, se a porta da gaiola estiver aberta,
para nunca mais voltar.

Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades...
Suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre
pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde
voava.

Certa vez, voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como
o algodão.

Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo
maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se
ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre
os galhos das árvores.

Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que eu vi, como presente
para você...

E assim ele começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo
que a menina nunca vira. Até que ela adormecia e sonhava que voava nas
asas do pássaro.

Outra vez ele voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça.

Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde
os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não
se apaga.

Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes
daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a
beleza dos campos verdes.

A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia.
E o pássaro amava a menina e, por isso, voltava sempre.

Mas chegava sempre a hora da partida. Chorava a menina e chorava o
pássaro. E a menina pediu ao pássaro que não mais partisse.

Eu vou lhe contar um segredo, disse-lhe o pássaro, as plantas precisam
da terra, os peixes precisam dos rios, nós precisamos do ar...

E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera da
volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas.

Se eu não for, não haverá saudades. Eu deixarei de ser um pássaro
encantado e você deixará de me amar.

Assim ele partiu. A menina sozinha, chorava de tristeza à noite. E foi
numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada.

Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá; será meu para
sempre. Nunca mais terei saudades e ficarei feliz.

Com esses pensamentos, comprou uma linda gaiola e ficou à espera.
Finalmente ele chegou, maravilhoso, com suas novas cores, com estórias
diferentes para contar.

Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente o
prendeu na gaiola para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu
feliz.

Foi acordar de madrugada, com um gemido triste do pássaro.
Ah! Menina... O que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas
ficarão feias e eu me esquecerei das estórias... Sem a saudade, o amor
irá embora...

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas
isto não aconteceu. O tempo ia passando e o pássaro ia ficando
diferente.

Caíram suas plumas, os vermelhos, os verdes e os azuis das penas se
transformaram num cinza triste. E veio o silêncio. Também a menina
entristeceu.

Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava
pensando naquilo que havia feito ao seu amigo... Até que não mais
aguentou. Abriu a porta da gaiola.

Pode ir, pássaro, volte quando quiser....

Obrigado, menina. Eu tenho que partir. É preciso partir para que a
saudade chegue e eu tenha vontade de voltar.

Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente.

E o pássaro partiu. Voou para lugares distantes. A menina contava os
dias, e cada dia que passava a saudade crescia...

Que bom, pensava ela, meu pássaro está ficando encantado de novo... E
colocava flores nos vasos à espera do seu amigo...

Sem que ela percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como o
pássaro. Porque, em algum lugar ele deveria estar voando. De algum
lugar, ele haveria de voltar.

À noite, a menina ia para a cama com saudades, mas também com as
esperanças do reencontro renovadas.

Ah! Mundo maravilhoso que guarda, em algum lugar secreto do Universo,
em plena liberdade, o pássaro encantado que se ama... E que um dia,
com certeza, vai voltar...



Redação do Momento Espírita, com base em história do livro A menina e o
pássaro encantado, de Rubem Alves, ed. Loyola.
Em 13.08.2012.




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