terça-feira, 28 de junho de 2016

Bilhete a um garoto


Oi, garotão...
Tu não lerás este bilhete...
Mas tenho a certeza plena de que tomarás conhecimento do que aqui te direi.
Chegaste e te foste embora... Durou muito pouco a tua permanência entre nós.
Poderá alguém dizer, com precipitação, que viveste pouco... Teria razão, em termos meramente humanos... E não teria razão no absoluto: posto que viveste e viverás toda a eternidade...
O fato é que a alegria de tua chegada foi logo substituída pela dor de tua partida... A felicidade de tua vinda foi marcada pelo luto de tua despedida.
Valeu a pena tanto sacrifício? Valeu, garotão, fica inteiramente tranquilo quanto a isto...
O amor não se mede em minutos ou em séculos: é grandeza que não pode ser quantificada, medida, pesada, calculada...
Por isto mesmo é que trouxeste tanto sorriso e levaste contigo tantas lágrimas...
Sabes que aprendemos contigo? Todos nós, garotão...
Porque eras esperado, o esperado... E olha, não apenas no enxoval, tecido e bordado com tanto carinho por mãos de mãe, de tias, de avós...
Eras esperado em cada coração, em cada pensamento...
Tua gestação foi problemática, penosa... E que valor teve. Provou teus jovens pais... Em nenhum instante eles pensaram em desistir do sacrifício, da luta, dos riscos, até mesmo da vida, que o trazer-te ao mundo representava...
Tu foste e és feliz, garotão. Sim, porque nós não acreditamos na morte, senão como começo e garantia de vida sem morrer...
Não passaste pelo dissabor de não seres aceito. Pelo contrário, cada pulsar de teu coração que se formava era a alegria, a esperança, o anelo e sonho de todos que já te queriam bem, antes que nascesses.
Quem nasce das dores aceitas é assim ainda mais querido e amado.
Foi o que aconteceu contigo. As lágrimas não apagavam tua presença e até a faziam mais intensa, mais amada, mais feliz.
Sabes que, como se isso fosse possível mesmo, tu uniste ainda mais os teus pais?
Teu pai se comoveu, como pode um homem comover-se, com o heroísmo de tua jovem mãe. Dores, agonia, sofrimento, nada a afastava da missão e do conforto de trazer-te à luz.
E tua mãe admirou ainda mais teu pai, moço na idade, maduro na tranquilidade aflita com que via passarem-se as horas de angustiosa expectativa, de presságios e de pressentimentos.
E os dois se uniram. Compreendiam que vinhas do Alto. Por isto aceitaram, ainda que o fizessem em pranto, que para o Alto voltasses minutos após tua chegada.
Viveste alguns minutos. E tua vida, tão curta em termos humanos, serviu para que várias dezenas de pessoas meditassem e compreendessem que a verdadeira vida, assim como o amor de que ela nasce, não pode ter fim.
*   *   *
Este texto foi escrito por um avô ao seu neto, neto que nasceu e respirou neste mundo por breve tempo.
Mas é um hino à vida. Vida terrena e à vida imortal, do Espírito que nunca morre.
Quando tantos pensam em ceifar vidas antes que venham à luz, quando tantos depreciam o nascer, quando tantos pensam em eliminar vidas no ventre materno, faz-se de importância pensar e meditar sobre esses versos, frutos do amor verdadeiro que compreende a gloriosa dádiva da vida.

Redação do Momento Espírita, com base em crônica do jornalista José Wanderley Dias, publicada no jornal Gazeta do Povo, de 14 de maio de 1986. 
Em 11.02.2011.




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